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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Come on up for the rising

  Num jornal espanhol de hoje, uma reportagem deu voz a um dos fãs do Bruce Springsteen antes do concerto de ontem em Gijón: "o Bruce faz-nos felizes". Tão simples e tão certeiro.
  
  Comecei a escrever isto enquanto estou à espera do avião no aeroporto de Madrid que, devido à greve geral em Portugal, está atrasado... Estou para lá de cansada física e mentalmente depois de 3 dias de voos com ligações, viagens de autocarro e de comboio,  do próprio concerto e da última noite que praticamente nem deu para dormir. Mas mais que isso, cansada mentalmente depois de cerca de 5 meses de puro Inferno.

  Neste post dá para ter uma ideia da forma como o Bruce entrou na minha vida e algum do impacto que tem tido. Um ano e pouco depois do concerto de Lisboa, o meu amor e admiração pela música dele e por ele continuam, de forma mais intensa até. Será impossível exprimir em palavras o impacto que tem tido na minha vida. Vida essa que mudou radicalmente em menos de meio ano...  Leio o post dessa altura e não posso ignorar a parte em que falo na sorte incrível que tenho tido apesar de alguns contratempos que julgo serem comuns a toda a gente. Mas de um dia para o outro essa "sorte" parece ter terminado, de certa forma. 
  Há alguns meses que tenho vontade de me exprimir da melhor forma que sei, sobre muito do que se tem passado mas não sei até que ponto o quero fazer, qual o interesse ou propósito e mais que isso como fazê-lo... Mas depois de tudo o que vivi ontem no concerto, sinto que tenho de deixar isto nalgum lado, preciso disso. 

  A verdade é que um dos meus maiores medos tornou-se realidade na forma de uma das doenças mais filhas da puta que podem existir e pior que ter acontecido a mim (porque seria o de menos: se não tivesse força para lutar não lutava e pronto), aconteceu à pessoa que me é mais próxima: a minha mãe. Ou seja, a ironia aqui está em dessa forma eu ser mesmo obrigada a aguentar e calar, não por mim mas por ela. Não há qualquer tipo de escapatória, qualquer tipo de escolha consciente em simplesmente não lutar e baixar os braços. Quando é alguém que amamos, o que sentimos não tem nenhum tipo de relevância, não interessa. Não há escolha entre ter e não ter força porque temos de a ter de qualquer forma, pela outra pessoa. É precisamente o que fazemos por ela que conta. 
Para mim, uma das melhores definições de Amor que já ouvi, surgiu num filme daqueles sem grande interesse por aí além mas que subitamente exprime em poucas palavras o que sempre senti:  Stop talking about love. Every asshole in the world says he loves somebody. It means nothing. It still doesn't mean anything. What you feel only matters to you. It's what you do to the people you say you love, that's what matters. It's the only thing that counts.

O que interessa que no dia em que soube da doença a minha vontade de cá estar tenha diminuido exponencialmente? O que interessa para o caso que o medo e a ansiedade subitamente tomaram conta de mim? Nada porque havia agora alguém que precisava desesperadamente que eu superasse isso o mais rapidamente possível porque tudo isto que se passou e se está a passar não tem nada a ver comigo, não pode girar à minha volta mas sim à volta dela. 

  Sempre que alguém me contava ou eu ouvia histórias de pessoas a quem foi diagnosticado algum cancro, a minha reacção era de puro terror. "É quase uma sentença de morte!" Mesmo que se saiba que actualmente há vários avanços nos tratamentos, que é perfeitamente possível ter esta doença e sobreviver, desafio qualquer pessoa a dizer-me que reagiu com calma e lucidez quando foi diagnosticado ou quando algum membro da família ou amigo foi diagnosticado com cancro. É que não se trata somente de se procurar desesperadamente a cura através dos tratamentos disponíveis, trata-se também de minimizar os efeitos desses mesmos tratamentos. Quimioterapia? Radioterapia?... São males necessários que por vezes têm consequências que uma pessoa nem sequer imaginava possível nos piores pesadelos e eu sei disso porque as vi e vejo. Porque passei os dois piores meses da minha vida a ter de lidar com isso, entre idas aos hospitais de Leiria e Coimbra por vezes sem saber o que esperar e como reagir... Sobre isso não me quero alongar muito porque sinceramente ainda é algo que não consegui "arrumar" e ultrapassar dentro mim. Há coisas que pessoa nenhuma deveria ter de passar. Pessoas como a minha mãe e pessoas com outras doenças como as que vi e tenho visto. Vi coisas com as quais fui aprendendo a lidar da melhor forma que pude mas que ainda não sei articular (e possivelmente nunca vou conseguir porque é demasiado). 
  Como é que se vive diariamente com a ideia da possibilidade da morte? Porque é algo que todos temos noção que vai acontecer a quem gostamos, inevitavelmente, nalguma altura das nossas vidas mas há que manter uma certa distância saudável disso senão torna-se impossível "funcionar"...  Li recentemente, já não sei onde, que a ideia de viver cada dia como se fosse o último, torna-se verdadeiramente insuportável a partir de certo ponto porque de que forma conseguimos viver cada dia com a percepção que pode ser o último? Ou pior, que pode ser o último de alguém que amamos mais que qualquer outra coisa ou pessoa?... Pois, não faço a mínima ideia... A minha compulsão no que toca a reflexões sobre tudo e mais alguma coisa, seja o que for, só me prejudica porque me presto a este tipo de torturas mentais.
   
  De certa forma nunca tive tanta infelicidade e felicidade ao mesmo tempo. É complicado explicar isso e não faz grande sentido mas se ao mesmo tempo nunca estive num buraco tão fundo, por outro lado nunca dei tanto valor a coisas tão pequenas e aparentemente insignificantes como dou hoje. Um dia em que a minha mãe esteja bem disposta e animada vale tudo para mim. Um dia em que ela se sinta bem e faça aquelas piadas tão dela que animam toda a gente, são dias em que não preciso de mais nada. Um dia em que encontro motivos para rir e fazer rir os outros, para ser eu mesma sem estar a fazer-me de forte, é um dia que merece ser vivido sem pensar no que pode acontecer ou não depois precisamente porque sei o quanto dói todos aqueles dias em que isso não existiu e tudo o que eu mais queria era a felicidade da minha mãe e a vida em troca só lhe dava sofrimento. 

  Há momentos em que dá para sentir na pele todo o caos e falta de explicação para o que nos acontece e nessas alturas viver é a coisa mais complicada que há. E não me refiro ao desejo de morrer mas a simples vontade de deixar de existir, de desaparecer porque ninguém me ensinou ou me disse como levar um dia depois do outro quando o contexto é este... Não faço a mínima ideia o que é suposto dizer, o que é suposto fazer. Às vezes nem sequer sei o que é suposto sentir. Se consegui encontrar algum tipo de "normalidade" para continuar a fazer a minha vida foi porque me fui agarrando a várias coisas. Porque há amigos que me mantêm cá, porque voltei a descobrir coisas das quais sempre gostei mas que no meio disto tudo deixaram de fazer sentido. A música é uma delas. 

  Quem me conhece minimamente bem sabe a importância que a música tem para mim, não havia um único dia que eu não ouvisse música e que isso não me trouxesse todo um mundo de vivências. Estive alguns meses sem conseguir ouvir absolutamente nada. A música era mais uma daquelas coisas que tinha deixado de me pertencer, que as outras pessoas tinham para elas e lhes dava um enorme prazer e para mim tinha simplesmente deixado de fazer sentido e isso era doloroso também de formas que não dá para explicar... Por um lado não conseguia ouvir de todo e por outro não queria que música nenhuma ficasse associada a este período da minha vida. Não queria ouvir algo daqui a uns anos e voltar ao estado de espírito mais que miserável em que andava anos antes... 

  Não me esqueci que a minha intenção era estar a escrever sobre o concerto que vi ontem do Bruce Springsteen em Gijón, está tudo relacionado.
 Quando alguém como o Bruce me faz sentir, do mais fundo das minhas entranhas, que vale a pena estar viva, que há momentos na vida da mais pura felicidade como a que eu sinto por causa da música dele e como ela me faz sentir e que ao mesmo tempo há momentos de tristeza mas que não estou sozinha neles, acho que um pouco do propósito dele enquanto artista está cumprido. 

When your best hopes and desires, are scattered to the wind
And hard times come and hard times go 
And hard times come and hard times go...


  Percebo que vale a pena lutar para ter dias bons e que vale a pena ter a expectativa que eles vão acontecer. Lutar para encontrar algum tipo de força, que me falha tantas vezes, no meio de tudo o que se está a passar... 
  É óbvio que sei que ele está a cantar para qualquer pessoa que o queira ouvir mas sinto que era para mim que ele estava a cantar esta música ontem em particular: 






  Não há explicação racional para esta minha ligação tão forte com ele e com a música dele. É algo que aconteceu imediatamente na primeira vez que o vi ao vivo e que me marcou irremediavelmente e me tem dado espaço para estar viva, espaço para querer estar viva e ter momentos de felicidade como a que tive ontem. 
  É como diz uma das minhas personagens preferidas dos filmes do Woody Allen:  whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works. 
E depois este amor pela música dele traduz-se também em pequenas coisas que já me tinha apercebido mas ainda não tinha vivido: pessoas que não conhecia de lado nenhum e falam comigo antes e depois do concerto, que fazem questão em dizer-me adeus, pessoas na rua a quem perguntei direcções para o Estádio e me perguntam com um sorriso na cara: "vais ver o Bruce?" como se ele fosse algum amigo nosso. Pessoas que a meio do concerto sorriem para mim a cantar ou até uma rapariga que me viu atrapalhada com o capuz do casaco que estava enrolado e me ajudou prontamente enquanto continuava toda feliz a cantar... Sei que são pequenas coisas e não têm nenhum significado em especial (e se passam certamente em concertos de outros artistas) mas ao mesmo tempo até têm. Há algo que nos une a todos e materializa-se desta forma curiosa. 
  Espero que o Bruce continue a dar-nos música por muitos e muitos anos e espero ter oportunidade de o ver mais vezes ao vivo. É das experiências mais transformadoras e únicas que podem existir.  

(é provável que amanhã ou depois volte a ler isto e muitas frases nem façam grande sentido tal o cansaço e falta de lucidez mas se deixasse para escrever depois, acho que não escrevia de todo...)
   
  

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Boss

Agora que já acabou 2012, devo um post à pessoa que mais me marcou no ano que passou. Alguém que não faz a mínima ideia nem nunca vai saber. Alguém que já mudou a vida de milhares de pessoas, certamente. Estou a falar do Bruce Springsteen.

É engraçado ver a cara de algumas pessoas quando por acaso estamos a falar de música, concertos e afins e eu digo que o meu concerto preferido de 2012 foi o do Bruce Springsteen (e E Street Band) no Rock in Rio. Acho gira a reacção de quem não foi e tal como eu, até ali, nunca lhes tinha prestado grande  atenção (aquele misto de: "hum... tens a certeza?" e "se calhar não viste muita coisa este ano..."). Antes desse concerto eu pensava exactamente da mesma maneira.
Não é que eu tivesse alguma coisa contra ele(s) ou não suportasse a música mas não percebia qual o interesse. Não me conseguia identificar com um cota de 60 e tal anos que cantava sobre a classe operária/trabalhadora americana, sobre New Jersey e pelo meio provavelmente outras coisas que não me interessavam por aí além. Achava que não seria o tipo de artista que poderia acrescentar algo à minha vida. Ah! A ironia…

Acabei por decidir ir por curiosidade, um ou dois dias antes. Várias pessoas, amigos e conhecidos, influenciaram-me nesse sentido (e ainda bem).
Para quem não esteve lá ou não aprecia, sei que tudo o que vou escrever daqui para a frente vai parecer exagerado mas é autêntico. 
Nos primeiros momentos do concerto eu já estava completamente rendida, convencida, tudo. E na “Twist and Shout”, já mesmo no final, com o fogo de artifício e no meio de milhares de pessoas, ao ver a cara de felicidade em todas, ao ver o êxtase dos meus amigos, ao sentir o meu, a minha vida não poderia voltar a ser a mesma. O que sabia é que tinha acabado de ver mais que um concerto, muito mais que isso. Faltava era perceber em que medida tinha sido alterada a minha percepção da vida.

 No documentário The Promise: The Making of "Darkness on the Edge of Town" há uma parte em que a Patti Scialfa (da E Street Band e patroa do Boss) diz que a primeira vez que os viu ao vivo ficou chocada porque estava num sítio com milhares de pessoas e no entanto cada uma delas estava a ter uma experiência extremamente pessoal com tudo o que se estava a passar. Concordo em absoluto com ela.
Noutro momento do documentário, o Bruce diz que os concertos, a experiência de cada actuação ao vivo é algo que surge do nada. Não existe absolutamente nada naquele espaço e tempo até ao exacto momento em é tocado o primeiro acorde e de repente a banda e o público partilham algo que se manifesta num mundo completamente aparte, um conjunto de valores, uma forma inteiramente nova de pensar sobre a vida e o mundo à nossa volta. Todo um mundo de possibilidades e essa vivência nunca poderá ser subtraída a quem ali esteve.

Já vi muita coisa ao vivo. Concertos incríveis, inesquecíveis, inacreditáveis, emocionantes, interessantes, comoventes, arrebatadores, aborrecidos, fracos... Mas depois há uma categoria de concertos de uma vida. Daqueles que me marcaram profundamente: Pearl Jam a 4 de Setembro de 2006 e Dave Matthews Band em 2009. A esses juntei este concerto do Bruce Springsteen. É dizer muito, até porque eu já gostava bastante quer de Pearl Jam (não tanto quanto passei a gostar depois de 2006) quer de Dave M. Band antes de os ver ao vivo.

Há alturas em que sinto que gostava de ter começado a ouvi-lo há mais tempo mas os últimos seis meses da minha vida mostram-me que, pelos vistos, era mesmo suposto ser assim. Foi na altura em que eu mais precisava dele.
Como dizia acima, eu sabia que algo tinha mudado naquela noite. 
Quis descobrir o máximo que podia sobre este homem, sobre a sua música (algumas coisas descobri sozinha e em relação a outras tive a sorte de me deparar com este blog)
Isso coincidiu (será que há mesmo coincidências?...) com uma altura em que me comecei a aperceber de muita coisa em mim e à minha volta.
Tenho tido uma sorte incrível na vida, tenho pessoas maravilhosas comigo, vivências e experiências que me têm enriquecido enormemente como pessoa. Algumas tornaram-me mais flexível e outras tornaram-me mais dura. Isto de ser adulto tem coisas complicadas, é difícil de navegar por vezes, é um território desconhecido, inóspito, hostil até... Em muitas coisas, não é o que eu tinha sonhado ou idealizado. Não fazia parte dos meus planos mas é mesmo assim e cada um há-de perceber para si o que fazer com isso.
A vida não vai ser nunca absolutamente tudo o que queremos senão que há para aprender? Às vezes temos de largar a visão que tínhamos do que é suposto sermos ou fazermos e deixar a vida acontecer. E isso não significa deixar de participar, de intervir no nosso destino. Significa apenas deixar de lado o ressentimento quando os planos têm de ser alterados ou ajustados. Conjugar o que queremos com o que tem de ser feito.
Chego ao início deste ano com a percepção que o que mais quero em 2013 é continuar a descobrir o que houver para descobrir e pelo caminho, viver.

E o que é que o Bruce tem propriamente a ver com isso? Muito mesmo. Apercebo-me quando o ouço que não estou sozinha, algures lá atrás ele teve dúvidas e dores de crescimento iguais às minhas. Apercebo-me o quanto ele pode enriquecer a minha vida com a música dele, com a mensagem dele.

As a songwiter I always felt one of my jobs was to face the questions that evolve out of my music and search for the answers as best as I could find. For me, the primary questions I’d be writing about for the rest of my work life first took form in the songs on “Born To Run” (…). It was the album where I left behind my adolescent definitions of love and freedom.
“Born To Run” was the dividing line.

Este é um homem que procura no mais fundo dele e faz música com isso. Acerta-nos em cheio porque está a escrever sobre nós, afinal. A verdade dele é a de muitos de nós. E a verdade não é bonita mas é por ela que estamos , na minha forma de ver.  Ele é honesto com a arte dele, faz questão disso. Tem uma visão e quer sempre passá-la para música que faz. 

Most of my writing is emotionally autobiographical. You’ve got to pull up the things that mean something to you in order for them to mean anything to your audience. That’s how they know you’re not kidding.
With the record’s final verse, “Tonight I’ll be on that hill…” my characters stand unsure of their fate, but dug in and committed. By the end of “Darkness”, I’d found my adult voice.

Este post faz ainda mais sentido hoje. No dia em que estou um ano mais velha e continuo a descobrir a minha adult voice.