sexta-feira, 1 de maio de 2009

Era a forma como ele lhe estendia a mão a convidar a dela sempre que iam para algum lado. Invariavelmente. Levantava-se, ficava um ou dois passos à frente dela, olhava-a e estendia-lhe a mão. Aqueles cinco, seis segundos em que ela fazia por hesitar, era o ritual deles.

Isto dir-me-ia ela, meses depois. Não havia contacto visual entre nós, eu estava deitada no sofá, com os olhos semi-cerrados, sonolenta e ela estava à janela a fumar. Era Verão, lembro-me. Sempre achei curioso a maneira que encontrava de me dizer que gostava de alguém. Nunca articulava o sentimento. Só nestes momentos é que me dava conta. É que percebia o quanto aquela pessoa que lhe estendia a mão daquela maneira tinha realmente significado.

'Aqueles cinco, seis segundos eram a minha morte'. Eu conseguia sentir o sorriso dela a dizer aquilo, pela voz. Ele sabia que era a forma dela se defender e o quanto ilustrava a importância do que nunca era dito entre os dois. Ele respeitava isso e pedia-lhe sempre permissão para entrar, todas as vezes que repetia aquele gesto.

Eu ouvi-a. Sabia que esta era a primeira e última vez que me falaria dele. Olhei por cima do braço do sofá e vi-a de costas, a acabar o cigarro. O meu silêncio estava cá para ela.

sábado, 17 de janeiro de 2009

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade



Era tão mas tão grande, o Eugénio.

all-singing, all-dancing crap of the world

Narrator: When people think you're dying, they really, really listen to you, instead of just...
Marla Singer: ... instead of just waiting for their turn to speak?