sábado, 6 de julho de 2013

Tempo de antena

Este post surge como o desenvolvimento de uma troca de ideias e opiniões sobre a situação do país e os meus dois centavos sobre o assunto. 
Eu não me identifico com nenhum partido político e acredito que a democracia apesar de estar muito longe de ser perfeita, é o menor dos males. 

Na minha forma de ver as coisas, tudo o que estamos a viver reporta-se a um problema muito mais profundo e demasiado enraizado na sociedade.
Acho que o modelo de ensino (em geral, não só em Portugal) não prepara as pessoas para terem um verdadeiro sentido cívico, para sentirem que lhes cabe um papel muito específico quando vivem em sociedade. Acho que não as prepara para a necessidade de terem um espírito crítico, para fazerem as questões correctas. E qual a razão para essa negligência? Porque isso é verdadeiramente perigoso e ameaça o status quo. Há um interesse em que as coisas se mantenham na mesma porque dessa forma quem está no poder não o vê ameaçado. 
  
Por que razão não se cria nas crianças a vontade (e necessidade) de pensarem por si próprias sobre todo o tipo de coisas? Que tal incentivar-se o estudo de obras como o "1984", "Animal Farm" ou o "Brave New World" na escola, por exemplo? Ensinar-se que temos de questionar absolutamente tudo o que nos é dado? Sensibilizar-se as pessoas para se questionarem de onde vem a informação? Quem a dá e em que condições? Quais os interesses por trás de certos meios de comunicação? A quem serve esse tipo de informação?...

Sinto que isto não tem de partir só de mudanças por parte de quem está na política, tem de partir da sociedade. Tem de haver interesse em preparar as pessoas para estarem informadas e munidas do máximo de factos. Esta é uma sociedade cada vez mais imersa em inutilidades, contra-informação, superficialismo. Não admira que sejam sempre os mesmos no poder e que o objectivo seja sempre o interesse próprio em vez do interesse da comunidade. Acho que enquanto não houver uma mudança muito séria na mentalidade, na consciência colectiva, vai manter-se tudo na mesma.

Este blog não tem um objectivo definido. É um sítio onde dou por mim a partilhar coisas que gosto e reflexões sobre assuntos que têm importância para mim. Sei que não tem uma projecção significativa na imensidão de conteúdos da internet mas numa era em que temos acesso a tanta informação, em que podemos comunicar uns com os outros de variadíssimas formas, é um desperdício não usarmos isso em nosso benefício. Tem é de haver interesse nisso, tem de partir de cada um a intenção de educar-se e partilhar isso com os outros. 

Sou idealista e, pior, irrealista nos meus pensamentos? Muito provavelmente isso irá transparecer mas a realidade é que eu sei que isto não são coisas que se obtêm de um dia para o outro. Acho que tem de se tentar, tem de haver pelo menos uma tentativa de encontrar algum caminho.
A mudança de mentalidades leva o seu tempo mas tem de se começar por algum lado e esta altura em que vivemos pode muito bem ser a altura ideal. 

Sei que é um longo caminho mas encoraja-me saber que conheço várias pessoas que pensam da mesma forma ou de forma similar à minha e isso pode ser o início de algum tipo de alteração deste estado de coisas. A resposta tem de estar bem para lá da escolha óbvia entre este ou aquele partido, nenhum deles tem um interesse claro em melhorar a vida de cada um de nós. Estas trocas de cadeiras no poder entre PS à esquerda e PSD/CDS à direita não são a solução, tem de haver uma alteração verdadeiramente significativa e de fundo e nós temos responsabilidade nisso.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Come on up for the rising

  Num jornal espanhol de hoje, uma reportagem deu voz a um dos fãs do Bruce Springsteen antes do concerto de ontem em Gijón: "o Bruce faz-nos felizes". Tão simples e tão certeiro.
  
  Comecei a escrever isto enquanto estou à espera do avião no aeroporto de Madrid que, devido à greve geral em Portugal, está atrasado... Estou para lá de cansada física e mentalmente depois de 3 dias de voos com ligações, viagens de autocarro e de comboio,  do próprio concerto e da última noite que praticamente nem deu para dormir. Mas mais que isso, cansada mentalmente depois de cerca de 5 meses de puro Inferno.

  Neste post dá para ter uma ideia da forma como o Bruce entrou na minha vida e algum do impacto que tem tido. Um ano e pouco depois do concerto de Lisboa, o meu amor e admiração pela música dele e por ele continuam, de forma mais intensa até. Será impossível exprimir em palavras o impacto que tem tido na minha vida. Vida essa que mudou radicalmente em menos de meio ano...  Leio o post dessa altura e não posso ignorar a parte em que falo na sorte incrível que tenho tido apesar de alguns contratempos que julgo serem comuns a toda a gente. Mas de um dia para o outro essa "sorte" parece ter terminado, de certa forma. 
  Há alguns meses que tenho vontade de me exprimir da melhor forma que sei, sobre muito do que se tem passado mas não sei até que ponto o quero fazer, qual o interesse ou propósito e mais que isso como fazê-lo... Mas depois de tudo o que vivi ontem no concerto, sinto que tenho de deixar isto nalgum lado, preciso disso. 

  A verdade é que um dos meus maiores medos tornou-se realidade na forma de uma das doenças mais filhas da puta que podem existir e pior que ter acontecido a mim (porque seria o de menos: se não tivesse força para lutar não lutava e pronto), aconteceu à pessoa que me é mais próxima: a minha mãe. Ou seja, a ironia aqui está em dessa forma eu ser mesmo obrigada a aguentar e calar, não por mim mas por ela. Não há qualquer tipo de escapatória, qualquer tipo de escolha consciente em simplesmente não lutar e baixar os braços. Quando é alguém que amamos, o que sentimos não tem nenhum tipo de relevância, não interessa. Não há escolha entre ter e não ter força porque temos de a ter de qualquer forma, pela outra pessoa. É precisamente o que fazemos por ela que conta. 
Para mim, uma das melhores definições de Amor que já ouvi, surgiu num filme daqueles sem grande interesse por aí além mas que subitamente exprime em poucas palavras o que sempre senti:  Stop talking about love. Every asshole in the world says he loves somebody. It means nothing. It still doesn't mean anything. What you feel only matters to you. It's what you do to the people you say you love, that's what matters. It's the only thing that counts.

O que interessa que no dia em que soube da doença a minha vontade de cá estar tenha diminuido exponencialmente? O que interessa para o caso que o medo e a ansiedade subitamente tomaram conta de mim? Nada porque havia agora alguém que precisava desesperadamente que eu superasse isso o mais rapidamente possível porque tudo isto que se passou e se está a passar não tem nada a ver comigo, não pode girar à minha volta mas sim à volta dela. 

  Sempre que alguém me contava ou eu ouvia histórias de pessoas a quem foi diagnosticado algum cancro, a minha reacção era de puro terror. "É quase uma sentença de morte!" Mesmo que se saiba que actualmente há vários avanços nos tratamentos, que é perfeitamente possível ter esta doença e sobreviver, desafio qualquer pessoa a dizer-me que reagiu com calma e lucidez quando foi diagnosticado ou quando algum membro da família ou amigo foi diagnosticado com cancro. É que não se trata somente de se procurar desesperadamente a cura através dos tratamentos disponíveis, trata-se também de minimizar os efeitos desses mesmos tratamentos. Quimioterapia? Radioterapia?... São males necessários que por vezes têm consequências que uma pessoa nem sequer imaginava possível nos piores pesadelos e eu sei disso porque as vi e vejo. Porque passei os dois piores meses da minha vida a ter de lidar com isso, entre idas aos hospitais de Leiria e Coimbra por vezes sem saber o que esperar e como reagir... Sobre isso não me quero alongar muito porque sinceramente ainda é algo que não consegui "arrumar" e ultrapassar dentro mim. Há coisas que pessoa nenhuma deveria ter de passar. Pessoas como a minha mãe e pessoas com outras doenças como as que vi e tenho visto. Vi coisas com as quais fui aprendendo a lidar da melhor forma que pude mas que ainda não sei articular (e possivelmente nunca vou conseguir porque é demasiado). 
  Como é que se vive diariamente com a ideia da possibilidade da morte? Porque é algo que todos temos noção que vai acontecer a quem gostamos, inevitavelmente, nalguma altura das nossas vidas mas há que manter uma certa distância saudável disso senão torna-se impossível "funcionar"...  Li recentemente, já não sei onde, que a ideia de viver cada dia como se fosse o último, torna-se verdadeiramente insuportável a partir de certo ponto porque de que forma conseguimos viver cada dia com a percepção que pode ser o último? Ou pior, que pode ser o último de alguém que amamos mais que qualquer outra coisa ou pessoa?... Pois, não faço a mínima ideia... A minha compulsão no que toca a reflexões sobre tudo e mais alguma coisa, seja o que for, só me prejudica porque me presto a este tipo de torturas mentais.
   
  De certa forma nunca tive tanta infelicidade e felicidade ao mesmo tempo. É complicado explicar isso e não faz grande sentido mas se ao mesmo tempo nunca estive num buraco tão fundo, por outro lado nunca dei tanto valor a coisas tão pequenas e aparentemente insignificantes como dou hoje. Um dia em que a minha mãe esteja bem disposta e animada vale tudo para mim. Um dia em que ela se sinta bem e faça aquelas piadas tão dela que animam toda a gente, são dias em que não preciso de mais nada. Um dia em que encontro motivos para rir e fazer rir os outros, para ser eu mesma sem estar a fazer-me de forte, é um dia que merece ser vivido sem pensar no que pode acontecer ou não depois precisamente porque sei o quanto dói todos aqueles dias em que isso não existiu e tudo o que eu mais queria era a felicidade da minha mãe e a vida em troca só lhe dava sofrimento. 

  Há momentos em que dá para sentir na pele todo o caos e falta de explicação para o que nos acontece e nessas alturas viver é a coisa mais complicada que há. E não me refiro ao desejo de morrer mas a simples vontade de deixar de existir, de desaparecer porque ninguém me ensinou ou me disse como levar um dia depois do outro quando o contexto é este... Não faço a mínima ideia o que é suposto dizer, o que é suposto fazer. Às vezes nem sequer sei o que é suposto sentir. Se consegui encontrar algum tipo de "normalidade" para continuar a fazer a minha vida foi porque me fui agarrando a várias coisas. Porque há amigos que me mantêm cá, porque voltei a descobrir coisas das quais sempre gostei mas que no meio disto tudo deixaram de fazer sentido. A música é uma delas. 

  Quem me conhece minimamente bem sabe a importância que a música tem para mim, não havia um único dia que eu não ouvisse música e que isso não me trouxesse todo um mundo de vivências. Estive alguns meses sem conseguir ouvir absolutamente nada. A música era mais uma daquelas coisas que tinha deixado de me pertencer, que as outras pessoas tinham para elas e lhes dava um enorme prazer e para mim tinha simplesmente deixado de fazer sentido e isso era doloroso também de formas que não dá para explicar... Por um lado não conseguia ouvir de todo e por outro não queria que música nenhuma ficasse associada a este período da minha vida. Não queria ouvir algo daqui a uns anos e voltar ao estado de espírito mais que miserável em que andava anos antes... 

  Não me esqueci que a minha intenção era estar a escrever sobre o concerto que vi ontem do Bruce Springsteen em Gijón, está tudo relacionado.
 Quando alguém como o Bruce me faz sentir, do mais fundo das minhas entranhas, que vale a pena estar viva, que há momentos na vida da mais pura felicidade como a que eu sinto por causa da música dele e como ela me faz sentir e que ao mesmo tempo há momentos de tristeza mas que não estou sozinha neles, acho que um pouco do propósito dele enquanto artista está cumprido. 

When your best hopes and desires, are scattered to the wind
And hard times come and hard times go 
And hard times come and hard times go...


  Percebo que vale a pena lutar para ter dias bons e que vale a pena ter a expectativa que eles vão acontecer. Lutar para encontrar algum tipo de força, que me falha tantas vezes, no meio de tudo o que se está a passar... 
  É óbvio que sei que ele está a cantar para qualquer pessoa que o queira ouvir mas sinto que era para mim que ele estava a cantar esta música ontem em particular: 






  Não há explicação racional para esta minha ligação tão forte com ele e com a música dele. É algo que aconteceu imediatamente na primeira vez que o vi ao vivo e que me marcou irremediavelmente e me tem dado espaço para estar viva, espaço para querer estar viva e ter momentos de felicidade como a que tive ontem. 
  É como diz uma das minhas personagens preferidas dos filmes do Woody Allen:  whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works. 
E depois este amor pela música dele traduz-se também em pequenas coisas que já me tinha apercebido mas ainda não tinha vivido: pessoas que não conhecia de lado nenhum e falam comigo antes e depois do concerto, que fazem questão em dizer-me adeus, pessoas na rua a quem perguntei direcções para o Estádio e me perguntam com um sorriso na cara: "vais ver o Bruce?" como se ele fosse algum amigo nosso. Pessoas que a meio do concerto sorriem para mim a cantar ou até uma rapariga que me viu atrapalhada com o capuz do casaco que estava enrolado e me ajudou prontamente enquanto continuava toda feliz a cantar... Sei que são pequenas coisas e não têm nenhum significado em especial (e se passam certamente em concertos de outros artistas) mas ao mesmo tempo até têm. Há algo que nos une a todos e materializa-se desta forma curiosa. 
  Espero que o Bruce continue a dar-nos música por muitos e muitos anos e espero ter oportunidade de o ver mais vezes ao vivo. É das experiências mais transformadoras e únicas que podem existir.  

(é provável que amanhã ou depois volte a ler isto e muitas frases nem façam grande sentido tal o cansaço e falta de lucidez mas se deixasse para escrever depois, acho que não escrevia de todo...)
   
  

quinta-feira, 7 de março de 2013

The House I Live In


It's not a war on drugs, it's a war on personal freedom, that's what it is ok? Keep that in mind at all times.  Thank you.


Bill Hicks







"The House I Live In" é um documentário de 2012 sobre a "guerra às drogas", termo tornado popular nos Estados Unidos nos anos 70. 
A primeira vez que ouvi falar sobre este documentário foi numa entrevista com Eugene Jarecki, o realizador, no "Daily Show" (curiosamente é referido o nome de Portugal no segundo vídeo): 









     
      





Factos apresentados: Desde 1971 esta guerra custou mais de 1 trilião de dólares e resultou em mais de 45 milhões de detenções. Os E.U.A. são o país com a taxa mais elevada de população encarcerada. Durante todos estes anos, o uso ilegal de narcóticos permaneceu inalterável.

A certa altura Charles Bowden (um jornalista de investigação) diz algo que acaba por ser a alavanca para este documentário: You have to understand that the war on drugs has never been about drugs. 
É tão simples quanto isso. 

Os Estados Unidos representam cerca de 5% da população mundial e no entanto têm 25% dos prisioneiros do mundo inteiro. Mais de 500.000 estão presos por crimes não violentos relacionados com consumo e tráfico de droga. Tráfico esse para sustentar o próprio vício pessoal, não se tratam de grandes traficantes de droga movidos por enormes interesses monetários.

O que começou nos anos 50/60 como um combate à contracultura consumidora de drogas (e que era transversal a várias raças), nos anos 80 começou a desenhar-se como um combate à comunidade negra norte-americana. As leis antidroga serviam o propósito maior de castigar os consumidores e não de prevenir o consumo.

Há uma parte no documentário que veio responder a várias dúvidas que eu própria tinha em relação à responsabilidade pessoal destas pessoas que são apanhadas nas teias do consumo e tráfico de droga. Ser desta ou daquela raça não pode ser justificação, em si, para isso. Todas as pessoas de uma minoria étnica que tiveram sucesso na vida e contrariaram essa condição demonstram isso. 
O que eu percebi é que é um jogo, à partida, viciado. 
Quando se deu a grande migração dos negros do Sul para o Norte dos Estados Unidos na procura de melhores condições de vida, as leis em vigor determinavam que só poderiam viver em certas zonas. A compra de propriedades estava-lhes vedada e se nos anos 50 ainda havia emprego, nos anos 60 começou a escassear devido ao êxodo das indústrias para outras partes das cidades. Estas pessoas começaram a viver de uma economia própria centrada na droga.  
Ainda nos dias de hoje, a grande maioria destas pessoas não tem qualquer tipo de hipótese de fugir a esta vida quando não há oportunidades no lugar onde nasceram e são criadas, quando as crianças para chegarem à escola têm de se deparar com traficantes, com crime, com todo o tipo de circunstâncias a que não deveriam ser submetidas, quando na escola a maioria dos professores não estão para se preocupar, quando em casa são "criadas" na maioria das vezes por pais ausentes (ou somente por um deles). Estas crianças crescem sem terem a possibilidade de irem muito longe. Vender droga parece ser o único caminho na esmagadora maioria das vezes e imaginem o que será viver num sítio em que o maior herói é o traficante de droga... Junte-se a isso a vida (que parece tudo menos isso) de alguém que sai da prisão nos Estados Unidos: não há praticamente empregos para quem já esteve preso, não há possibilidade de pedir bolsas para estudar, não lhe é permitido viver em certos lugares, não é elegível para várias ajudas a nível de saúde, familiares que vivam em casas de bairros sociais não os podem alojar porque estão proibidos de o fazer. É um ciclo vicioso.

Outra parte muito elucidativa é quando Richard Miller (historiador) faz uma retrospectiva histórica sobre a proibição de vários tipos de droga nos Estados Unidos e salienta que as leis antidroga tiveram sempre na sua génese a raça. 
Em 1800 as drogas não eram ilegais, eram socialmente aceites. O ópio, usado tradicionalmente na comunidade imigrante chinesa, foi proibido na Califórnia mas não noutras partes do país. A razão disso prende-se com o facto de na altura os chineses se concentrarem precisamente na Califórnia onde trabalhavam e estavam a retirar empregos aos americanos. O mesmo se passou com a cocaína no Sul, associada aos negros que mais uma vez ameaçavam os empregos dos americanos por trabalharem mais e ganharem menos. Outro caso: a marijuana, associada aos mexicanos. 
Esta era uma das formas de se poder exercer algum controlo racial de forma a equilibrar a economia.    

A "guerra às drogas" surgiu como uma forma de Nixon ganhar as eleições nos anos 70 e apesar de inicialmente ele até se ter tentado focar no tratamento em detrimento da punição, a agenda política acabou por obrigá-lo a voltar-se para a luta contra o crime e toda a propaganda que veio atrás. 
Um dos intervenientes no documentário, um guarda prisional, tem pontos de vista que fazem bastante sentido. Um deles é quando diz que historicamente são os políticos com o discurso habitual severo contra o flagelo da droga que são eleitos e usam estas pessoas (mais uma vez é de sublinhar que não se tratam de criminosos violentos ou de traficantes poderosos) como exemplo. Pessoas apanhadas com pequenas quantidades de droga que muitas vezes têm de enfrentar penas completamente desproporcionais ao crime cometido! Penas iguais às aplicadas a quem comete o crime de homicídio muitas vezes, pena de prisão perpétua nalguns casos até...

Algo completamente surreal acontece por exemplo no que toca à cocaína. Até há pouco tempo, o consumo de crack (cocaína que se fuma e associada desde o seu surgimento à comunidade afro-americana) era punido mais severamente que cocaína em pó (quando a única diferença é que no crack é adicionada água, bicarbonato de sódio e é aquecido...). É dado o exemplo de alguém que é julgado por posse de 5 gr. de crack e alguém com 500 gr. de cocaína em pó. As duas pessoas serão tratadas judicialmente da mesma forma... Não faz qualquer sentido! 
Actualmente deixou de haver essa proporção de 1:100 e passou a ser 1:18.
Continua a não fazer qualquer sentido. A haver punição deveria ser em igual proporção, é a mesma droga!... E os juízes mesmo que não concordem, são obrigados a sentenciar um número mínimo de anos na prisão (que muitas vezes é bastante elevado) - mandatory minimums.

Do outro lado, esta guerra também prejudica os polícias. Os que trabalham directamente com os crimes relacionados com narcóticos ganham dinheiro por cada detenção. Ou seja, acabam por ganhar mais pelas detenções do que propriamente em salário o que faz com que haja o estímulo para deter mais e mais pessoas. Já um detective não tem esse tipo de incentivo, ganha menos e em termos estatísticos mostra menos trabalho porque eventualmente resolverá um crime por mês (a título de exemplo). Não se resolvem mais crimes desta natureza porque a atenção vai toda para os crimes relacionados com a droga, esses é que geram dinheiro e distinção. A própria polícia deixa de ter fé no trabalho que é feito... 

Entretanto nos últimos anos algo curioso aconteceu. Com o consumo cada vez maior de metanfetamina (meth), a atenção voltou-se para esta droga que é associada a brancos, de classe média, não violentos que muitas vezes estão no desemprego e viram-se para o tráfico para ganhar algum dinheiro. Esta franja da sociedade americana passou a enfrentar o mesmo tipo de discriminação que muitos antes deles sofreram. 
A grande ironia da economia é não se importar com a raça. Se a pessoa não serve de nada economicamente falando, não interessa de que cor é, torna-se dispensável e empata menos estando confinada a uma prisão. É como disse alguém: it's a war on all americans.
David Simon que é um jornalista, produtor, autor e criador de uma das melhores séries de sempre, "The Wire" (que se foca no tráfico de droga em Baltimore), diz algo como: The drug war is a holocaust in slow motion. Pode chocar o paralelismo mas se virem o documentário vão perceber...

O negócio das prisões privadas na América gera bastante lucro e emprego nas comunidades onde se fixa. É uma guerra lucrativa portanto, a das drogas.
Não é o meu objectivo, de forma alguma, denegrir a imagem dos Estados Unidos mas está mais que visto (não só no que toca a esta questão) que é uma sociedade altamente capitalista em que o lucro, o capital estão no cerne de tudo (e não, não sou comunista e não me identifico com nenhum partido), em que os lobbies é que têm o verdadeiro poder de decisão... E é um país com capacidades para ser tão mais que isso, um país com uma origem inspiradora que poderia honrar de outra forma a sua própria história.

O que ficou comigo deste documentário e é difícil de engolir (não só nos E.U.A., como é óbvio) é como as pessoas são meros peões num jogo e destroem-se vidas com uma enorme facilidade com a desculpa que se está a combater um mal (a droga) quando o que está por trás é algo muito maior e mais vasto. Não será mais humano e eficaz focarem-se no que leva ao consumo de droga e partir daí sem penalizarem (ainda) mais as pessoas? Pois, isso já seria demasiado útopico...