quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Dois

É a maneira como ela vive em mim quando estamos dentro do carro e me diz que eu só ouço porcaria, com aquele sorriso que faz troça de mim. Quando são seis horas da manhã e já não é de noite mas também ainda não é de dia e não existe mais ninguém para além de nós. Existe ela, existo eu, dentro de um Corsa, perdidos no meio de nenhures e ela fecha os olhos, canta a minha música. Sorri de novo, desta vez sem qualquer traço de gozo e deixa-se sentir. Deixa-me adorá-la naquele espaço entre nós.  O espaço que vai do meu silêncio até à boca dela que continua a cantar, agora mais baixo, quase a sussurrar. Ela parte-me o coração e nem se dá conta. Olho para ela e é cada vez maior o espaço que ocupa em mim. O sentimento expande-se e eu não vejo outra forma de reagir senão encolher-me para dentro. Deixou de cantar e, com os olhos ainda fechados, toca-me ao de leve no braço e sorri novamente.

Dentro de mim há um amor que se renova sempre que ela está. Sempre que está presente, sempre que está ausente. É um amor que vive por si e em si próprio, que encontrou em mim algo a que se agarrar e me dá vida a cada segundo. Sei que ela não o leva a sério porque é demasiado, é incompreensível. Sei que tenta perceber, quando me põe as mãos na cara e olha para mim sem desviar o olhar, com uma determinação que me diz tudo o que é preciso saber. Quando encosta a testa dela na minha e nunca tira os olhos dos meus. Eu consigo sentir a vida que ela me pulsa quando me toca, quando não tira as mãos da minha cara. Ela transforma algo no mundo de forma indelével e ninguém se dá conta, só eu.

Quero dizer-lhe que sinto em mim todas as emoções quando a tenho. Que elas se apoderam de mim de formas que me ultrapassam, de formas que me assustam, formas que me dão cabo do estômago, do sistema nervoso, de tudo. Ela remexe-me e isso inquieta-me e conforta-me. Isso dá e tira-me vida. Existe tudo no espaço entre mim e ela, não existe nada no espaço entre mim e ela.

Agora volta a cantar mas sem música. Já não está a olhar para mim, está a olhar em frente e o Sol entretanto já nasceu. Ela canta e isso dói-me . Ela existe e está ao meu lado e isso pesa-me. Ela nem se dá conta que agora sim, agora percebo de forma clara e inequívoca a mortalidade. Percebo que tudo à volta é passageiro. Sinto-me sem equilíbrio e ela continua sempre a cantar. Sinto o impulso de pedir que se cale porque ela dói-me em toda a parte e quero que se cale, que cale o que me força a sentir. Sinto-me fora de mim sem ter qualquer forma de o contrariar. Eu estou nela e é o melhor e o pior sentimento. Leva-me onde entender, quer eu queira ou não. Ela está ali mas eu não.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

wearing the face that she keeps in a jar by the door

there is a loneliness in this world so great
that you can see it in the slow movement of
the hands of a clock.

people so tired
mutilated
either by love or no love.

people just are not good to each other
one on one.

the rich are not good to the rich
the poor are not good to the poor.

we are afraid.

our educational system tells us
that we can all be
big-ass winners.

it hasn't told us
about the gutters
or the suicides.

or the terror of one person
aching in one place
alone

untouched
unspoken to

watering a plant.



Charles Bukowski - "Love is a Dog from Hell"









domingo, 18 de agosto de 2013

Nebraska

It's the thin line between stability and that moment when time stops and everything goes to black. When the things that connect you to your world - your job, your family, friends, your faith, the love and grace in your heart - fail you.

  
Estas são algumas palavras do Bruce Springsteen sobre "Nebraska", o álbum que lançou em 1982. Dentro da discografia dele, nem é dos álbuns que ouço mais apesar de gostar de todo o ambiente, da(s) história(s) que está(estão) por trás do mesmo e até do facto curioso de ter sido gravado no dia a seguir ao meu nascimento. Para além disso, em 1982 ele tinha mais ou menos a idade que eu tenho hoje. 


At the time, that was my most personal record. It was a record that felt most like my childhood. It reminded me of the way my childhood felt. (...). I reached a point where I was old enough now to realize what was missing (...). I felt a deep, deep sense of isolation. Very difficult to get in and became very, very intense around that time and I think that led me to those characters and to those kind of stories.
When you get old, the price for not sorting through the issues that make up your emotional life and the choices you're making, doesn't stay the same. It gets higher all the time (...). The older you get, the price goes up and it keeps getting higher and higher and you pay more on a daily basis from not coming to grips with some of those things. At that point I was at a place where I could really feel that price and I just felt too disconnected.







O "Nebraska" é um álbum completamente despido. Gravado em casa, sem as condições de um estúdio de gravação e sem a intenção, nessa altura, de ser lançado naquele formato. 
Esta é uma faceta diferente do Bruce Springsteen, diversa daquelas que se podem ouvir nos cinco primeiros álbuns. Aqui ele é muito mais sombrio e cru. Nota-se uma escuridão que, por vezes, ganha contornos assustadores. Histórias de violência, crime, pessoas para quem a vida foi madrasta lado a lado com histórias autobiográficas que apesar de menos chocantes, também carregam um enorme peso. E em todas aquele tom melancólico, assombrado... A voz por vezes sumida, outras vezes acompanhada de gritos de loucura. Há pouco espaço para qualquer luz ou redenção. A desolação é profunda...



You don’t have to be a Springsteen scholar to know that redemption and salvation are two of his most common themes. Redemption comes in the form of a car, a girl, a killer sax solo. He preaches salvation through a song, a river, or a sunny day at the shore. On Nebraska, even death can’t bring deliverance. Probably my favorite line on the whole record comes on the title track, when his fictionalized Starkweather character is sentenced to death. He tell us, “They declared me unfit to live/ said into that great void my soul be hurled.” (If there’s a better metaphor for death, I haven’t heard it.) This person isn’t even going to hell. His soul is doomed to drift about in this “great void” for all eternity. The worst part is, he doesn’t even care because at the end of it all, “I guess there’s just a meanness in this world.”


Bryant Kitching


Tratando-se de música, é claro que está tudo em aberto para interpretações e há quem veja vários momentos de salvação e de resiliência neste álbum mas eu prefiro recorrer a outros álbuns do Bruce Springsteen para encontrar esses sentimentos. Para mim o "Nebraska" é aquele sítio escuro, repleto de melancolia e muitas vezes maldito que quero que se mantenha assim. 
Há coisas que só conseguimos exorcizar através das experiências e arte dos outros, o "Nebraska" representa isso para mim.


The concluding lines of virtually every song described the same spirit-crushing vision of life: "There's just a meanness in this world"; "Let'em shave off my hair and put me on that execution line"; "I met this guy and I'm gonna do a little favor for him"; "Hey ho, rock' n' roll, deliver me from nowhere"; "Shining 'cross this dark highway where our sins lie unatoned".  


Peter Ames Carlin, "Bruce".